No ano 1474 foi viver para Segóvia um moço cavaleiro chamado D. Rui de Cardenas.
Morava numa casa ao lado de uma igreja. Em frente ficava o palácio de D. Afonso de Lara. D. Rui gostava de festas, caçadas e armas. Também D. Leonor ia lá todos os domingos, com uma aia carrancuda. Um dia ao vela ajoelhada, D. Rui aproximou-se, e logo descobriu quem ela era e onde morava. Passou toda a semana a sonhar de voltara encontrá-la, todos os domingos ficava a contemplá-la. A aia foi contara D. Afonso de Lara que D. Rui estava apaixonado Por D. Leonor. Pôs-se ciumento e a odiar o rapaz e mandou vigiá-lo. Proibiu-a de sair. Depois de muito pensar mandou os criados prepararem trouxas e cavalos, porque de madrugada iriam sair dali iam para herdade em Cabril. D. Rui e toda a cidade soube da jornada. D. Leonor ficou contente porque tinha ar, sol, flores para regar, um viveiro de pássaros. Mas nem naquela casa tinha descanso. Mandava um criado seber notícias do seu rival. Uma noite foi ter com a D. Leonor, levando uma folha de pergaminho. Pediu-lhe que ela escreve-se uma carta que lhe convinha. Ela começou a escrever, mas quando ouviu a continuação perguntou, porque é que ele queria que ela escreve-se coisas tão falsas, a gritar. Ele puxou um punhal e perguntou-lhe se queria que ele o espeta-se no coração. Então ela disse para ele ditar. Ela corou quando ele mandou endereçar a carta a D. Rui. Duas lágrimas saltaram dos seus olhos. Estava D. Rui a entrar em casa quando um moço lhe entregou a carta. D. Rui perguntou-lhe qual era o caminho mais perto e ele disse-lhe que era pelo o Cerro dos Enforcados. D. Rui estava entusiasmado e ansioso pela noite. Quando os morcegos começaram a girar em torno da torre da igreja. Ele montou o cavalo e foi pela igreja saudar sua madrinha. Foi pela estrada até ao Cerro dos Enforcados. Lá tinha quatro enforcados. Ele ia-se afastar daquele lugar quando ouviu um dos enforcados a chama-lo. O enforcado pediu-lhe para cortar a corda. O corpo caiu no chão. D. Rui não mostrou terror nem nojo. D. Rui perguntou-lhe se ele estava morto ou vivo, ele encolheu os ombros e pediu para o levar com ele a Cabril. D. Rui pensou se seria um enforcado envido pelo demónio? Fez o sinal da cruz e ajoelhou-se. D. Rui pensou se seria um enviado de Deus? D. Rui disse para ele ir com ele até Cabril. Desceu outra vez com o cavalo para a estrada. O enforcado seguia ao seu lado que mesmo galopando o acompanhava. Parecia que o vento o empurrava. Ás vezes puxava o nó da corda que tinha ao pescoço, para respirar melhor. E ás vezes dizia como era bom correr. D. Rui ia assombrado. Não sabia que serviço lhe ia prestar, se ia impedir que se encontra-se com a sua amada? Apetecia-lhe voltar para trás, mas aceitar o convite de D. Leonor. A lua ia alta iluminava o que devia ser um segredo. Um enforcado sair da forca e saber tudo. Era triste chegar á porta de linda dama com aquela companhia. Perto da porta da quinta aconselhou a amarrar o cavalo a um árvore. Que o ruído dos pés já era muito. O enforcado foi à frente e D. Rui atrás. Passaram por uma porta, por uma rua com árvores, pelo tanque de nenúfares. O enforcado disse que era por ali. Avançaram cuidadosamente, até à casa. Encostada a uma varanda estava uma escada. O enforcado empurrou o jovem apaixonado. E pediu-lhe a capa e o chapéu, que ia trepar pela janela e espreitar para o quarto. D. Rui disse que não. Mas o enforcado tirou-lhe o chapéu e puxou-lhe a capa. D. Rui tremia de raiva. O outro subiu a escada, punha o joelho na varanda. Repente apareceu um vulto negro, gritando vilão. Uma lâmina de adaga espetou-se no enforcado, ele caiu pesadamente na terra mole. Num instante D. Rui tirou a espada. O enforcado levantou-se do chão e disse que não era um encontro de amor mas de morte. Correram para a estrada. Então D. Rui viu que o enforcado ainda tinha a adaga cravada no peito, e a ponta lhe saía pelas costas. Eles montaram o cavalo, o cavaleiro galopou, sentindo aquele corpo gelado nas costas. D. Rui perguntou para aonde queria que o leva-se o enforcado disse que dava mais jeito ao pé da forca e D. rui ficou com alívio. O enforcado pediu a D. Rui para o pendurar. D. Rui ficou admirado por ele se crer enforcar outra vez, o enforcado disse que era a vontade de Deus e de Nossa Senhora. D. Rui fez o que ele lhe pediu, pendurou-o. Ele perguntou se ele estava bem assim, o enforcado disse que estava como devia. Olhou para ele. Encontrava-se como no início da noite. Tinha a adaga espetada no peito. O enforcado pediu-lhe para quando chegar a Segóvia, contar tudo a Nossa Senhora do Pilar. Quando D. Rui chegou a Segóvia. Entrou na igreja. Agradeceu o favor recebido, prometeu nunca mais desejar o que não devia. Em Cabril, D. Afonso de Lara andava à procura do corpo de D. Rui no jardim. Mas não havia flor machucada. Sem incerteza, pegou num cavalo e foi a Segóvia. Encontrou tudo na normalidade. Perguntou se havia novidades, mas não havia. De noite D. Afonso não conseguiu dormir. Pensava como é que D. Rui pudera escapar. Tocavam os sinos, os lojistas abriam as portas. Os hortelões vendiam fruta fresca. Os frades, descalços, pediam esmolas. As beatas, gulosas, enfiavam-se nas igrejas. De repente viu D. Rui, ia caminhando para a igreja. D. Afonso foi para casa e chamou o seu velho capelão. Então o padre contou-lhe um caso prodigioso. Tinha descoberto que um dos enforcados tinha uma adaga espetada no peito. Alguém o tirou e levou a um jardim porque estava sujo com terra. E voltara a enforcá-lo. A cidade estava toda espantada. Agora já nem os mortos tinham sossego, dizia o religioso. D. Afonso ouvia, com as mãos a tremer. Depois quis partir para ver. Quando chegou lá, já estava uma multidão. Ele olhou para o enforcado e era a sua adaga. Foi para Cabril espavorido, guardou o segredo. Afastado da mulher, cada vez mais amarelo e definhado. Até que um dia o encontraram morto no canteiro debaixo da varanda. D. Leonor herdeira, voltou para Segóvia. E ficou de luto. Quando tirou os vestidos negros foi visitar a Senhora do Pilar. D. Rui estava à frente do altar. Ouviu um barulho e virou-se. Era ela, ficou tão feliz como as andorinhas. Depois o bispo casou-os no ano de 1475.